Olhar Cidadão
Alunos/as de primeiro grau que participam do projeto do Inesc são destaque na mídia por causa de uma experiência de cidadania ativa e participação. Anexa matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense.
KARINA (E), COM A PROFESSORA FRANCISCA, QUE IDEALIZOU O PROJETO PARA UMA TURMA DE 40 ALUNOS: ORGULHO DE APRENDER SOBRE POLÍTICA E DIREITOS DO CIDADÃO
DE OLHO NELES
Projeto de escola pública, em Taguatinga, estimula crianças a discutir política, estudar história, meio ambiente e mitologia. Olhar Cidadão ganhou prêmio nacional do MEC
A aluna da 4ª série B da Escola Classe 17 de Taguatinga Rayra Mariana de Assis Sant’ Ana, 10 anos, aprendeu que pode pedir a nota fiscal ao comprar apenas um chocolate ou uma balinha na venda da esquina. Asafe Bruno Pinto Siqueira, 10 anos, estudou a vida política de deputados distritais e se decepcionou com as atitudes de alguns. Karina Silva, 10 anos, agora conhece a importância dessas e outras descobertas, como cuidar do meio ambiente, defender direitos e deveres dos cidadãos, saber que a população pode e deve se mobilizar para pedir mudanças na sociedade.
Todos esse temas foram debatidos dentro da sala de aula de 40 alunos da Escola Classe 17 de Taguatinga. Durante o primeiro semestre deste ano a proposta foi desenvolvida por meio do projeto Olhar Cidadão, de autoria da professora Francisca Rodrigues de Oliveira, 45 anos, 17 anos deles dedicados ao magistério. Os alunos envolvidos no programa garantem que vão levar as lições que aprenderam, ao pé da letra, para o resto da vida. Estão orgulhosos do aprendizado e do fato de que o Olhar Cidadão foi um dos 20 melhores trabalhos nacionais selecionados pelo Prêmio Professores Brasil promovido pelo Ministério da Educação (MEC). A professora recebeu troféu, diploma e um prêmio de R$ 5 mil.
Foram seis meses de muito trabalho. Durante as aulas de matemática, português, ciências, história, artes, a professora ensinou e orientou para que os olhares dos alunos estivessem sempre atentos ao que se passa na sociedade. Ensinou- os a acumular informações com um olhar crítico e a colocar em prática o que aprenderam de gestos de cidadania. Nas aulas de história conheceram pontos turísticos da cidade e o que eles representam na vida do país.
Justiça
Um dos passeios que os alunos mais gostaram foi a visita ao Ministério da Justiça e à Praça dos Três Poderes. Lá, os pequenos aprenderam a simbologia na qual foi baseada a estátua que representa a Justiça, como a que está em frente ao Palácio do Planalto e de costas para o prédio do Supremo Tribunal Federal (STF), de autoria de Alfredo Ceschiatti. A escultura mostra a deusa Têmis, segundo a mitologia grega, com uma cornucópia (tipo de espada antiga) sobre o colo — que simboliza o poder da Justiça —, a venda nos olhos — que representa a imparcialidade — e a balança, que significa o equilíbrios das partes de um litígio. Na ocasião eles tiveram a oportunidade de estudar um pouco de mitologia. “Eles imaginaram como seria a deusa Têmis nos dias de hoje. Imaginaram ela com um laptop para que os processos fossem julgados com maior velocidade”, contou a professora.
Democracia
Ainda nas aulas de história os alunos aprenderam sobre os tipos de governo e deram maior destaque à democracia. Discutiram o processo de escolha dos deputados e a função dos representantes legais da população. Durante as atividades do projeto, fizeram até um abaixo-assinado com 500 assinaturas, colhidas pelos próprios alunos na comunidade, contra o aumento do salário dos deputados.
Fellipe Lopes, 10 anos, chegou a pedir ao pai que o levasse na Câmara Legislativa para ver como era o trabalho do deputado que ele estudou. “Posso dizer que sobre política meu filho sabe mais do que eu. Ele está antenado agora”, comenta o bombeiro Carlos Roberto, 30 anos, pai de Fellipe. Nas aulas de artes, desenharam caricaturas dos deputados. Nas de ciências observaram a responsabilidade do homem na preservação do meio ambiente.
Na última quinta-feira, a professora Francisca e seus alunos foram recebidos para uma audiência pública, na Câmara Legislativa, em homenagem ao trabalho da professora e dos alunos. Para os alunos, a lição vai ficar para sempre. “Eu aprendi que até para comprar doces eu posso pedir a nota fiscal. Eu falei isso para a minha mãe e vou lembrar por muito tempo”, destacou Rayra.
O colega dela, Asafe, 10 anos, disse que o maior aprendizado é saber avaliar os deputados que se tornam representantes da população. “Eles precisam ser pessoas corretas. E se fizer algo errado têm de ser punidos.” Letícia Machado Farias, 10 anos, deixou um recado: “Os cidadãos devem ser a pauta principal dos governantes”. Olhar Cidadão começou a ser executado no íncio do ano letivo: “Não foi fácil. Mas estou muito satisfeita com o resultado”, comemorou Francisca.